A odontologia do sono é uma especialidade que vem crescendo rapidamente no Brasil, focada no tratamento de distúrbios respiratórios do sono — especialmente o ronco e a apneia obstrutiva do sono (AOS) — através de dispositivos intraorais. Estima-se que 33% dos adultos brasileiros roncam habitualmente e que cerca de 32 milhões sofram de apneia do sono em algum grau.

Embora muitas pessoas considerem o ronco apenas um incômodo, ele pode ser um sinal de apneia obstrutiva do sono, uma condição médica séria associada a riscos cardiovasculares, metabólicos e neurológicos. Neste artigo, vamos explicar como o dentista especialista em sono pode ajudar no tratamento desses distúrbios.

O Que É Apneia Obstrutiva do Sono

A apneia obstrutiva do sono (AOS) é um distúrbio caracterizado por episódios repetidos de obstrução parcial ou total das vias aéreas durante o sono. Essas obstruções reduzem ou interrompem o fluxo de ar, causando quedas na oxigenação sanguínea e microdespertares que fragmentam o sono.

Classificação por Gravidade

GrauÍndice de Apneia-Hipopneia (IAH)Sintomas
Normal< 5 eventos/hora
Leve5 a 15 eventos/horaRonco, sonolência leve
Moderada15 a 30 eventos/horaRonco intenso, sonolência diurna, irritabilidade
Grave> 30 eventos/horaRonco severo, pausas respiratórias, risco cardiovascular elevado

O IAH é medido pela polissonografia, o exame padrão-ouro para diagnóstico de distúrbios do sono.

Ronco: Muito Mais que um Barulho

O ronco é causado pela vibração dos tecidos moles da faringe (palato mole, úvula, base da língua) durante a passagem do ar. Embora nem todo ronco indique apneia, ele é o sintoma mais frequente da AOS.

Fatores de risco para ronco:

  • Excesso de peso (IMC > 25)
  • Consumo de álcool antes de dormir
  • Tabagismo
  • Posição supina (dormir de barriga para cima)
  • Obstrução nasal crônica
  • Anatomia facial (retrognácia, micrognatia)
  • Aumento das amígdalas e adenoides
  • Idade avançada (perda de tônus muscular)
  • Uso de sedativos e relaxantes musculares

O Papel do Dentista na Odontologia do Sono

O dentista especializado em odontologia do sono atua no tratamento (não no diagnóstico) dos distúrbios respiratórios do sono, em conjunto com o médico do sono (otorrinolaringologista, pneumologista ou neurologista).

O principal instrumento do dentista do sono é o aparelho intraoral de avanço mandibular (AIO), que funciona reposicionando a mandíbula e a língua para frente durante o sono, abrindo a via aérea e reduzindo ou eliminando o ronco e as apneias.

Como Funciona o Aparelho Intraoral

O AIO é composto por duas placas — uma superior e outra inferior — conectadas por um mecanismo que avança gradualmente a mandíbula. Esse avanço:

  1. Traciona a mandíbula para frente (protrusão mandibular de 5-10mm)
  2. Arrasta a base da língua junto com a mandíbula, afastando-a da parede posterior da faringe
  3. Tensiona os tecidos do palato mole e da faringe, reduzindo a vibração (ronco)
  4. Aumenta o espaço aéreo retrofaríngeo em até 30-40%

Tipos de Aparelhos Intraorais

TipoDescriçãoPreço MédioIndicação
MonoblocoPeça única com mandíbula em posição fixaR$ 800-2.000Casos simples, ronco primário
Herbst modificadoBielas metálicas laterais com ajusteR$ 2.000-4.000Apneia leve a moderada
SomnoDentSistema de parafuso lateral com micro-ajusteR$ 3.000-6.000Apneia leve a moderada
Narval CCFabricado digitalmente com CAD/CAMR$ 4.000-8.000Alta precisão, conforto superior
Herbst com pinosArticulação com pinos telescópicosR$ 2.500-5.000Versatilidade de ajuste

Os aparelhos devem ser feitos sob medida pelo dentista, a partir de moldagem ou escaneamento digital. Aparelhos de "tamanho único" vendidos na internet não são eficazes e podem causar problemas.

Indicações e Contraindicações

Quando o Aparelho Intraoral É Indicado

De acordo com a American Academy of Sleep Medicine (AASM) e a Associação Brasileira do Sono (ABS):

  • Ronco primário (sem apneia): primeira linha de tratamento
  • Apneia leve (IAH 5-15): primeira linha (tão eficaz quanto CPAP)
  • Apneia moderada (IAH 15-30): alternativa ao CPAP quando o paciente não tolera ou prefere o aparelho intraoral
  • Apneia grave (IAH > 30): apenas quando há intolerância ao CPAP ou como terapia combinada
  • Terapia combinada: AIO + CPAP em casos complexos

Contraindicações

  • Menos de 8 dentes saudáveis por arcada
  • Doença periodontal avançada (dentes com mobilidade)
  • DTM severa (disfunção temporomandibular) — pode piorar com o avanço mandibular
  • Apneia central do sono (diferente da obstrutiva)
  • Obesidade mórbida como único tratamento (eficácia reduzida)

Eficácia: O Que Dizem os Estudos

Os aparelhos intraorais demonstram eficácia comprovada em estudos clínicos:

  • Redução do IAH: 50% a 70% nos casos leves e moderados
  • Eliminação do ronco: 80% a 90% dos pacientes
  • Taxa de sucesso (IAH < 10 ou redução > 50%): 65-75%
  • Adesão ao tratamento: 75-85% (superior ao CPAP, cuja adesão é de 50-60%)
  • Melhora da sonolência diurna: comparável ao CPAP

Uma revisão sistemática publicada no Journal of Clinical Sleep Medicine concluiu que, em apneia leve a moderada, o resultado de saúde com AIO é equivalente ao CPAP a longo prazo, devido à maior adesão ao uso do aparelho intraoral.

AIO vs CPAP: Comparativo

CritérioAparelho Intraoral (AIO)CPAP
Eficácia (apneia leve/moderada)AltaMuito alta
Eficácia (apneia grave)ModeradaMuito alta
Adesão ao uso75-85%50-60%
ConfortoAlto (pequeno, silencioso)Baixo (máscara, mangueira, ruído)
PortabilidadeExcelente (cabe no bolso)Limitada (equipamento volumoso)
Custo inicialR$ 2.000-8.000R$ 2.000-6.000
ManutençãoTroca a cada 3-5 anosTroca de máscara/filtros periódica
Efeitos colateraisDesconforto mandibular, mudanças oclusaisRessecamento nasal, claustrofobia, aerofagia
PrescriçãoDentista + médico do sonoMédico do sono

O Processo de Tratamento

Etapa 1: Diagnóstico Médico

O paciente deve primeiro passar por um médico do sono para realizar a polissonografia e confirmar o diagnóstico de ronco/apneia. O dentista NÃO diagnostica distúrbios do sono — ele trata com base no diagnóstico médico.

Etapa 2: Avaliação Odontológica

O dentista do sono avalia:

  • Saúde bucal geral (dentes, gengiva, restaurações)
  • ATM e musculatura mastigatória (verificar bruxismo associado)
  • Número e condição dos dentes (suporte para o aparelho)
  • Anatomia mandibular e capacidade de protrusão
  • Radiografia panorâmica e, quando necessário, tomografia

Etapa 3: Confecção do Aparelho

Moldagem ou escaneamento digital das arcadas, registro da mordida em posição de avanço mandibular (geralmente 50-70% da protrusão máxima) e envio ao laboratório. O aparelho fica pronto em 2 a 4 semanas.

Etapa 4: Instalação e Ajuste

O dentista instala o aparelho, orienta o uso e inicia os ajustes graduais de avanço mandibular. O avanço é aumentado progressivamente a cada consulta (1-2mm por vez) até atingir o ponto ótimo de eficácia sem desconforto.

Etapa 5: Acompanhamento

Consultas periódicas (a cada 3-6 meses) para:

  • Avaliar efeitos colaterais (dor mandibular, mudanças na mordida)
  • Ajustar o avanço conforme necessário
  • Verificar integridade do aparelho
  • Solicitar nova polissonografia com o aparelho para confirmar eficácia

Efeitos Colaterais

Os efeitos colaterais são geralmente leves e transitórios:

  • Salivação excessiva ou boca seca: nas primeiras semanas de uso
  • Desconforto mandibular matinal: geralmente resolve em 15-30 minutos
  • Alterações oclusais: mudanças sutis na mordida podem ocorrer a longo prazo (monitoradas pelo dentista)
  • Sensibilidade dental: pressão nos dentes de apoio
  • DTM transitória: dor na ATM que geralmente se resolve com ajuste do aparelho

Perguntas Frequentes

O aparelho intraoral cura a apneia?

Não. O aparelho trata a apneia enquanto é utilizado — não existe cura para a AOS (exceto em casos relacionados exclusivamente à obesidade, onde a perda de peso pode resolver). O uso deve ser contínuo, todas as noites, assim como o CPAP.

Quanto tempo leva para o aparelho fazer efeito?

O ronco geralmente diminui nas primeiras noites de uso. A redução significativa das apneias ocorre após 4 a 8 semanas de ajustes progressivos. Uma polissonografia de controle é realizada após 3-6 meses para confirmar a eficácia.

Meu plano odontológico cobre o aparelho de apneia?

A maioria dos planos odontológicos não cobre aparelhos intraorais para apneia, pois são considerados tratamento de distúrbio do sono. Alguns planos de saúde médicos podem cobrir parcialmente. Consulte sua operadora para verificar.

Posso usar o aparelho se tenho bruxismo?

Sim. Na verdade, muitos pacientes com apneia também apresentam bruxismo, e o aparelho intraoral pode proteger os dentes do desgaste simultaneamente. O dentista ajustará o aparelho considerando ambas as condições.

Crianças podem usar aparelho de apneia?

O tratamento de apneia em crianças geralmente envolve adenotonsilectomia (remoção de amígdalas e adenoides) como primeira opção. Aparelhos intraorais ortopédicos podem ser utilizados em alguns casos pediátricos, mas a avaliação deve ser feita por otorrino e dentista especializado.

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Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação profissional. Consulte um dentista especializado em odontologia do sono e um médico do sono para orientação sobre seu caso específico.